Não entendo porque a falsidade causa tanto incômodo
assim. Sério: por que discriminar alguém de índole pseudo-duvidosa,
atribuindo-lhe o valor deveras pejorativo que porta a palavra “falso” e suas
variantes, quando, na verdade, todos nós o somos?
Por que é tão difícil assim aceitar que todos nós,
sem exceção, somos falsos? Admitam: n-ó-s s-o-m-o-s f-a-l-s-o-s. Uns em escalas
mais baixas, outros em escalas mais elevadas, mas todos nós somos. Quem disser
que não é, somente estará comprovando a assertiva que propus.
É cruel e injusto chamar outrem de tal forma, quando todos
possuímos o mesmo teto de vidro. Olhe: encarnamos papéis e os trocamos em cena
o tempo inteiro; não damos voz aos nossos impulsos e reprimimos nossa essência
até o âmago da alma; esta, a nossa verdadeira identidade, não revelamos a
ninguém ou sequer a conhecemos; diria que só o fato de vivermos em sociedade,
abrindo forçosamente mão de nossa individualidade em prol de comungar
experiências, já nos torna demasiadamente falsos. Pior: falsos com nós mesmos.
Já que todos nós aderimos a moda de extirpar
preconceitos, por que não extirpar este também? Tratemos a falsidade com
respeito e trivialidade ao invés de um tabu, pois estamos, metaforicamente, “cuspindo
no prato que comemos”.